Uma cortina de ferro fechou-se sobre o front. Não sabemos o que está acontecendo por trás dela. [...] Entrementes, a atenção de nossos povos estará concentrada em infligir castigos à Alemanha, hoje prostrada e em ruínas. Em pouquíssimo tempo estará ao alcance dos russos avançar para as águas do mar do Norte e do Atlântico, se eles assim desejarem.
Winston Spencer Churchill – Memórias da Segunda Guerra Mundial
Resumo: Não fosse a rendição nipônica em 1945, aos escombros do horrível sacrifício de duas de suas maiores cidades, hoje estaríamos sob o jugo de uma única bandeira vermelha.
Dedicatória
A lavra deste trabalho é dedicada ao perecimento das almas silenciadas, ao sofrimento e a bravura de um povo, cuja riqueza cultural e intrepidez guerreira, lhes deram forças louváveis para reconstruírem sua grandeza das cinzas.
“Once upon a Time in 1945”...
O último ano da segunda grande guerra que quebrou paradigmas e transformou sociedades. O nazismo entrelaçava-se com o III Reich ainda vivo e pulsante apenas na figura desgastada do Fürher e já completamente fora de sua realidade. Salvo por alguns plenipotenciários que ainda sentiam o calor da chama do nacional-socialismo, ao estarem perto de seu líder, ali, nas divisões e cômodos da estrutura decadente do Bunker[1], como Joseph Goebbels e Karl Dönitz, momento em que uma mensagem havia sido passada: por seis anos aquele povo inflamado e intrépido, em sua história, advertira o mundo sobre seu temperamento patriótico num sonho por vingança, glória e conquistas, mas que definhava-se a cada palmo adentrado pelos exércitos aliados, no coração da Alemanha. Era o começo do fim de atrocidades aterradoras, junto ao sonho de uma Deutschland über alles e de um Weltreich que morria em corpo e alma na sucateada Luftwaffe e na dissidência de personagens como Heinrich Himller e Albert Speer, bem como outros compromissados na conspiração contra Hitler, cujo organizador principal viria a ser Stauffenberg.
Porém, muito embora o réquiem nacional-socialista e suas catarses devam ser mencionadas de passagem, o que de fato importa com o encerramento do teatro da grande guerra mundial é tão somente o que diz respeito ao avanço soviético (pós Stalingrado), em países que serviram de base para o assento da “cortina de ferro” no coração da Europa, ou seja, o foco estratégico no longo prazo dos anos subseqüentes à Untergang[i] alemã. Foco este que fizeram da “guerra desnecessária” (assim denominada por Churchill) uma guerra imperiosa quanto aos fatos que levaram à escalada nazista que gradativamente pisoteava a auto castrada Liga das Nações (motivo que levou o político conservador britânico Anthony Éden a renunciar, em 1938, ao cargo de ministro para os Assuntos da Liga, quando assistiu uma Alemanha impune e o facismo italiano desfraldar sobre a Etiópia), cuja importância reside na sobriedade, prudência e bom senso político e estratégico. Lacunas que agravaram os vinte anos de crise intermediários a 1919 e 1939. Enquanto a love politics – impregnada nos princípios da Liga, no gabinete a serviço de Sua Majestade do indiferente Lord Baldwin, na Inglaterra, no temor dos “Galos” franceses – servisse o camarote de Hitler ao meio de seus preparativos, a power politics imperialista alemã somente viria a ser reconhecida pelos apaziguadores de Versalhes quando da Conferência de Munique foi celebrado o acordo da mentira, em que toda a Tchecoslováquia (não apenas a região dos Sudetos, como estabelecido no acordo) fora abocanhada pela Blitzkrieg alemã, até que o mesmo fim se estendesse para a Polônia, fim em 1939. (Apesar de o Plano Schlieffen ter sido elaborado em 1905 para uma guerra rápida de dois fronts, em 1914, os preparos de Hitler para a Europa também consistiram numa espécie de “guerra relâmpago” que buscasse neutralizar a frente ocidental, assegurada pela rápida capitulação francesa passando novamente pela Bélgica, para enfim executar o impetuoso Angriff contra o front soviético, na frente oriental).
Mas, dispensando detalhes, tais lacunas não vieram a se manifestar na estratégia militar dos Aliados durante a grande guerra, graças ao gênio de figuras como Churchill e Dwight Eisenhower, na condução de manobras estratégicas como a operação Tocha, Suserano e os planos de ocupação à Normandia no “Dia D”. Contundo, não é possível dizer o mesmo quanto à visão política ao termino das hostilidades alemãs, ainda sob a incondicional resistência de uma das vertentes do Eixo: o Japão. O país se mantinha encolerizado sob o repúdio a qualquer solução pacífica que viesse a implicar numa rendição ou qualquer submissão a quaisquer termos de paz. Nem mesmo é possível dizer com total segurança que os Aliados detinham uma ampla visão estratégica nos anos finais da grande guerra, quando, a guisa de exemplo, o desembarque anfíbio da operação Suserano ocorreu pelo estreito de Gibraltar, na França, e não no Istmo de Istria, no extremo Adriático, dominada por Trieste, na Itália. Esta empreitada faria com fosse aberto um corredor pelo Passo de Liubliana, rumo à Áustria e a Hungria, para o avanço militar à Berlim, fazendo com que os efetivos militares estabelecidos no norte africano, provenientes da Operação Tocha (que sufocou por fim o Afrika Corps do general Erwing Rommel), fossem melhor utilizados na mobilização direta para os países balcânicos, em sincronia com os desembarques na Normandia, como previu a maestria estratégica de Churchill[2]. Isso faria com que os Aliados chegassem a Viena antes do Exército Vermelho soviético (que vinha expulsando os alemães de seu território, batendo em retirada da batalha de Stalingrado) abrindo a possibilidade de semear a liberdade aos países na porção balcãnica do continente, no exercício da soberania de seus respectivos povos, a exemplo das democracias ocidentais. Mas não foi o que aconteceu, já que o general Eisenhower e Roosevelt se sentiram mais atraídos pela operação Dragão[ii] (o desembarque anfíbio na Riviera francesa, ao sul do país, liderada pelo general Wilson). Os chefes do Estado-Maior norte americano se fizeram relutantes em percorrer os Bálcãs para atingir a Alemanha, já que o governo de Vichy, na França, ainda mantinha tropas alemãs no país, cuja resistência se demonstrou tão pífia que seria preferível o envio de tropas diretamente à Eisenhower, como auxílio à operação Suserano na Normandia (“Dia D”), o que não contribuiu em nada para a operação, uma vez que a oportunidade de acertar rapidamente a Alemanha pelo atalho balcânico foi recusado, privando que os exércitos vitoriosos na Itália fossem mobilizados por este atalho, que contaria ainda com a vantagem de uma segunda frente[3]. Os franceses poderiam ter aguardado.
Enquanto o Japão obstinado por manter ilusoriamente seu império do sol, ao passo de que suas esquadras ainda exerciam certo poder de resistência às empreitadas anfíbias dos norte-americanos e em menor grau britânicos, a Alemanha já estava fadada à capitulação dos Aliados dando já por certo a vitória aos mesmos. Ao meio deste epílogo, seria necessário que o teatro de guerra terminasse o mais rápido possível, o que transformou a obstinada resistência nipônica em um impasse estratégico decisivo para os Aliados britânicos e americanos: como obter a rendição definitiva da vertente do Eixo no Pacífico o quanto mais célere fosse possível, uma vez que os objetivos soviéticos se tornavam cada vez mais obscuros ao restante da Europa, por detrás daquela “cortina de ferro” assentada no coração do Velho Continente, aonde a liberdade dos países balcânicos vinha se tornando uma questão duvidosa? Uma resposta absoluta não poderia vir sem que fossem estabelecidos cálculos de ordem política e principalmente estratégica (o que alcança o objetivo deste artigo), sem mesmo desprezar os de ordem moral que vieram a se tornar questionamentos de repercussão mundial depois de Hiroshima e Nagasaki, cujo silêncio devastador e episódio foram, pelas décadas subseqüentes, vistos pelo mundo com estarrecido temor e abomino.
Tal era a situação em que se depararam os defensores das democracias liberais e do exercício da soberania por vias do sufrágio universal, num cenário político decisivo para os norte-americanos abandonarem por completo seu isolamento do continente europeu, o qual marcou quase toda a metade do século XX. Lembrando que as recomendações de George Washington para que a política americana devesse estar longe das intrigas européias, traçada a partir do reconhecimento de sua independência em 1783 e da proclamação de sua Constituição em 1787, marcaram os primórdios do isolamento norte-americano naquela porção continental.
Talvez fosse de grande importância para os Estados Unidos que se colocassem neste isolamento num período que se estendesse do final do século XIX ao início do século XX, uma vez que os interesses voltados para uma delimitação territorial interna seria de fato a principal meta a ser alcançada, pois o fenômeno da supremacia não poderia ser vislumbrada se as bandeiras americanas desfraldassem apenas na costa leste da América (e Hollywood não ganharia prestígio por seus Western movies – que seria de Clint Eastwood, John Wayne e Lee Van Cleef? O cartunista Thomas Nast não teria dado cor e forma, em 1870, à Abraham Lincoln como Tio Sam e mesmo que sim, seria inconcebível que Uncle Sam pudesse escolher os garotos que seriam mobilizados para abafar os estrondos de 1914, com o memorável “I want you”). Mas tudo mudaria a partir de 1918. Tinha que mudar. Já não seria mais conveniente que o governo de Washington se preocupasse apenas com atuações políticas que mesclavam essencialmente interesses comerciais com dosagens de políticas de poder basicamente restritas à Doutrina Monroe e a posições no Pacífico: deveriam considerar seu poder nacional como um todo, e como superpotência, e colocar a Europa nos cálculos de sua influência política para finalmente exercerem seu papel imprescindível na defesa dos interesses ocidentais. A supremacia norte americana já havia se esculpido e seu poder inconteste não poderia mais resumir-se a interesses com restrições meramente regionais, uma vez que a América espanhola já havia a muito se tornado América Latina operando sob engrenagens ainda que primitivamente capitalistas e perceber que o Velho Continente sozinho não poderia levantar-se das cinzas de 1914 e 1939 e resistir ou sequer barganhar contra a máquina de Stalin, que vinha demonstrando com nitidez sufocar o exercício da vontade nacional dos países balcânicos, deixando explícito ou implícito o algoz de que o compromisso com a Revolução Gloriosa não permitiria que ele se contentasse até que uma linha imaginária conectasse Vladivostok à Lisboa.
Embora tais idiossincrasias atemporais (sem mais delongas acerca da inviável retração do poder político norte-americano e dos prelúdios que precederam os acontecimentos que levaram o continente europeu à configuração de forças pós – 1945) sejam meras divagações metonímicas, são pertinências ilustrativas para a compreensão de que o verdadeiro Leitmotiv[iii] soviético nos Bálcãs é apenas uma parte dos planos para o triunfo do socialismo sobre o capitalismo e as democracias ocidentais[4]. A máquina imperial do leste não seria debruçada ali por mera casualidade das circunstâncias e muito menos por oportunidade vislumbrada no teor dos avanços contra os alemães pós batalha de Stalingrado (que Stalin soube muito bem tirar proveito do pretexto de que estaria libertando a Europa do nacional-socialismo na medida em que o Exército Vermelho esganava-se sobre o Leste europeu, até enfincarem suas botas em Praga, a partir do momento em que foram barrados graças aos “malditos” americanos). Todo um estratagema subversivo no exterior já vinha sendo engenhosamente estudado desde 1918, contra a Tchecoslováquia, num golpe de Estado em 1948 que de acordo com Paul Zinner[5], da formação do Partido Comunista Tchecoslovaco, organizado por um grupo tcheco de prisioneiros de guerra, o líder social democrata deste soviete, Alois Muna, seria a ponte humana (junto aos social-democratas Bohumir Smeral e Josef Stivin) para que fossem promovidas agitações a favor do bolchevismo, ao passo que fora devidamente instruído por Lênin acerca da metodologia revolucionária. (Para ver como as instituições democráticas brasileiras foram corroídas pelo germe, ver a obra de Suzanne Labin “Em Cima da Hora” e para compreender como a sovietização de Cuba não acontecera da noite para o dia, que o leitor tenha acesso a obra de James Monhan e Kenneth O. Gilmore, “A Grande Cilada”).
Mais do que apenas jogos subversivos difusos, a verdade sobre o projeto imperial de Outubro de 1917 gira em torno da sovietização universal, o que caracterizava o âmago da razão de estado soviética, a qual não consistia apenas na conversão e submissão mundial ao socialismo (o qual pudesse ser vários à medida que fossem desvinculados da Gestapo, como o Comitern chinês que adotou caminhos divergentes do que esperava o governo de Moscou, a partir de 1923), mas sim na suprema potencialização das vias e vertentes revolucionárias globais de modo que se tornassem conexas a uma aglomeração única e necessariamente vinculada à intelligentsia comunista internacional, sob o ativismo e prontidão de seu QG em Moscou. Isto quer dizer que quaisquer revoluções que brotassem deveriam ser submetidas ao controle direto da URSS, o que explica a III Internacional Comunista ter sido completamente apossada por Stalin (fato que levou Trotsky a criar sua pífia IV Internacional). Dada as dimensões territoriais da Rússia sempre terem sido, ao longo de sua história, de natureza supra-imperiais (tendo em conta o fato de ter o país a maior extensão territorial do mundo), seria logicamente irresistível que suas fronteiras não desejassem conhecer limites na busca de uma expansão constante e implacável por todas as direções possíveis até onde pudessem chegar, sendo, portanto, aquilo que manifestava, ultima ratio, a vontade maior do marxismo-leninismo sobre os auspícios de uma União Soviética robustamente militarizada.
Ipso facto, qual seria então o papel do Exercito Vermelho estacionar-se numa faixa territorial que contornava praticamente todo o Báltico, emendando Rostock (Alemanha) descendo o Mulde e o Elba, pegando a Tchecoslováquia, parte da Áustria e que era recheada pelos Bálcãs, se não fosse a completa e incondicional capitulação da Europa? Que seriam das ilhas britânicas, consideradas a barricada insular do Ocidente, se o Velho Mundo fosse por completo subjugado pelos profetas armados? Seria possível um outro “Dia D” na Normandia ou Gibraltar? Para onde toda a produção daquelas indústrias pesadas da Renânia, da Alsacia e Lorena seriam voltadas e designadas e para onde todos aqueles portos lançariam suas, agora, ilimitadas e incontestáveis esquadras? Mar do Norte? Atlântico? Mackinder pode responder.
Winston Spencer Churchill – Memórias da Segunda Guerra Mundial
Resumo: Não fosse a rendição nipônica em 1945, aos escombros do horrível sacrifício de duas de suas maiores cidades, hoje estaríamos sob o jugo de uma única bandeira vermelha.
Dedicatória
A lavra deste trabalho é dedicada ao perecimento das almas silenciadas, ao sofrimento e a bravura de um povo, cuja riqueza cultural e intrepidez guerreira, lhes deram forças louváveis para reconstruírem sua grandeza das cinzas.
“Once upon a Time in 1945”...
O último ano da segunda grande guerra que quebrou paradigmas e transformou sociedades. O nazismo entrelaçava-se com o III Reich ainda vivo e pulsante apenas na figura desgastada do Fürher e já completamente fora de sua realidade. Salvo por alguns plenipotenciários que ainda sentiam o calor da chama do nacional-socialismo, ao estarem perto de seu líder, ali, nas divisões e cômodos da estrutura decadente do Bunker[1], como Joseph Goebbels e Karl Dönitz, momento em que uma mensagem havia sido passada: por seis anos aquele povo inflamado e intrépido, em sua história, advertira o mundo sobre seu temperamento patriótico num sonho por vingança, glória e conquistas, mas que definhava-se a cada palmo adentrado pelos exércitos aliados, no coração da Alemanha. Era o começo do fim de atrocidades aterradoras, junto ao sonho de uma Deutschland über alles e de um Weltreich que morria em corpo e alma na sucateada Luftwaffe e na dissidência de personagens como Heinrich Himller e Albert Speer, bem como outros compromissados na conspiração contra Hitler, cujo organizador principal viria a ser Stauffenberg.
Porém, muito embora o réquiem nacional-socialista e suas catarses devam ser mencionadas de passagem, o que de fato importa com o encerramento do teatro da grande guerra mundial é tão somente o que diz respeito ao avanço soviético (pós Stalingrado), em países que serviram de base para o assento da “cortina de ferro” no coração da Europa, ou seja, o foco estratégico no longo prazo dos anos subseqüentes à Untergang[i] alemã. Foco este que fizeram da “guerra desnecessária” (assim denominada por Churchill) uma guerra imperiosa quanto aos fatos que levaram à escalada nazista que gradativamente pisoteava a auto castrada Liga das Nações (motivo que levou o político conservador britânico Anthony Éden a renunciar, em 1938, ao cargo de ministro para os Assuntos da Liga, quando assistiu uma Alemanha impune e o facismo italiano desfraldar sobre a Etiópia), cuja importância reside na sobriedade, prudência e bom senso político e estratégico. Lacunas que agravaram os vinte anos de crise intermediários a 1919 e 1939. Enquanto a love politics – impregnada nos princípios da Liga, no gabinete a serviço de Sua Majestade do indiferente Lord Baldwin, na Inglaterra, no temor dos “Galos” franceses – servisse o camarote de Hitler ao meio de seus preparativos, a power politics imperialista alemã somente viria a ser reconhecida pelos apaziguadores de Versalhes quando da Conferência de Munique foi celebrado o acordo da mentira, em que toda a Tchecoslováquia (não apenas a região dos Sudetos, como estabelecido no acordo) fora abocanhada pela Blitzkrieg alemã, até que o mesmo fim se estendesse para a Polônia, fim em 1939. (Apesar de o Plano Schlieffen ter sido elaborado em 1905 para uma guerra rápida de dois fronts, em 1914, os preparos de Hitler para a Europa também consistiram numa espécie de “guerra relâmpago” que buscasse neutralizar a frente ocidental, assegurada pela rápida capitulação francesa passando novamente pela Bélgica, para enfim executar o impetuoso Angriff contra o front soviético, na frente oriental).
Mas, dispensando detalhes, tais lacunas não vieram a se manifestar na estratégia militar dos Aliados durante a grande guerra, graças ao gênio de figuras como Churchill e Dwight Eisenhower, na condução de manobras estratégicas como a operação Tocha, Suserano e os planos de ocupação à Normandia no “Dia D”. Contundo, não é possível dizer o mesmo quanto à visão política ao termino das hostilidades alemãs, ainda sob a incondicional resistência de uma das vertentes do Eixo: o Japão. O país se mantinha encolerizado sob o repúdio a qualquer solução pacífica que viesse a implicar numa rendição ou qualquer submissão a quaisquer termos de paz. Nem mesmo é possível dizer com total segurança que os Aliados detinham uma ampla visão estratégica nos anos finais da grande guerra, quando, a guisa de exemplo, o desembarque anfíbio da operação Suserano ocorreu pelo estreito de Gibraltar, na França, e não no Istmo de Istria, no extremo Adriático, dominada por Trieste, na Itália. Esta empreitada faria com fosse aberto um corredor pelo Passo de Liubliana, rumo à Áustria e a Hungria, para o avanço militar à Berlim, fazendo com que os efetivos militares estabelecidos no norte africano, provenientes da Operação Tocha (que sufocou por fim o Afrika Corps do general Erwing Rommel), fossem melhor utilizados na mobilização direta para os países balcânicos, em sincronia com os desembarques na Normandia, como previu a maestria estratégica de Churchill[2]. Isso faria com que os Aliados chegassem a Viena antes do Exército Vermelho soviético (que vinha expulsando os alemães de seu território, batendo em retirada da batalha de Stalingrado) abrindo a possibilidade de semear a liberdade aos países na porção balcãnica do continente, no exercício da soberania de seus respectivos povos, a exemplo das democracias ocidentais. Mas não foi o que aconteceu, já que o general Eisenhower e Roosevelt se sentiram mais atraídos pela operação Dragão[ii] (o desembarque anfíbio na Riviera francesa, ao sul do país, liderada pelo general Wilson). Os chefes do Estado-Maior norte americano se fizeram relutantes em percorrer os Bálcãs para atingir a Alemanha, já que o governo de Vichy, na França, ainda mantinha tropas alemãs no país, cuja resistência se demonstrou tão pífia que seria preferível o envio de tropas diretamente à Eisenhower, como auxílio à operação Suserano na Normandia (“Dia D”), o que não contribuiu em nada para a operação, uma vez que a oportunidade de acertar rapidamente a Alemanha pelo atalho balcânico foi recusado, privando que os exércitos vitoriosos na Itália fossem mobilizados por este atalho, que contaria ainda com a vantagem de uma segunda frente[3]. Os franceses poderiam ter aguardado.
Enquanto o Japão obstinado por manter ilusoriamente seu império do sol, ao passo de que suas esquadras ainda exerciam certo poder de resistência às empreitadas anfíbias dos norte-americanos e em menor grau britânicos, a Alemanha já estava fadada à capitulação dos Aliados dando já por certo a vitória aos mesmos. Ao meio deste epílogo, seria necessário que o teatro de guerra terminasse o mais rápido possível, o que transformou a obstinada resistência nipônica em um impasse estratégico decisivo para os Aliados britânicos e americanos: como obter a rendição definitiva da vertente do Eixo no Pacífico o quanto mais célere fosse possível, uma vez que os objetivos soviéticos se tornavam cada vez mais obscuros ao restante da Europa, por detrás daquela “cortina de ferro” assentada no coração do Velho Continente, aonde a liberdade dos países balcânicos vinha se tornando uma questão duvidosa? Uma resposta absoluta não poderia vir sem que fossem estabelecidos cálculos de ordem política e principalmente estratégica (o que alcança o objetivo deste artigo), sem mesmo desprezar os de ordem moral que vieram a se tornar questionamentos de repercussão mundial depois de Hiroshima e Nagasaki, cujo silêncio devastador e episódio foram, pelas décadas subseqüentes, vistos pelo mundo com estarrecido temor e abomino.
Tal era a situação em que se depararam os defensores das democracias liberais e do exercício da soberania por vias do sufrágio universal, num cenário político decisivo para os norte-americanos abandonarem por completo seu isolamento do continente europeu, o qual marcou quase toda a metade do século XX. Lembrando que as recomendações de George Washington para que a política americana devesse estar longe das intrigas européias, traçada a partir do reconhecimento de sua independência em 1783 e da proclamação de sua Constituição em 1787, marcaram os primórdios do isolamento norte-americano naquela porção continental.
Talvez fosse de grande importância para os Estados Unidos que se colocassem neste isolamento num período que se estendesse do final do século XIX ao início do século XX, uma vez que os interesses voltados para uma delimitação territorial interna seria de fato a principal meta a ser alcançada, pois o fenômeno da supremacia não poderia ser vislumbrada se as bandeiras americanas desfraldassem apenas na costa leste da América (e Hollywood não ganharia prestígio por seus Western movies – que seria de Clint Eastwood, John Wayne e Lee Van Cleef? O cartunista Thomas Nast não teria dado cor e forma, em 1870, à Abraham Lincoln como Tio Sam e mesmo que sim, seria inconcebível que Uncle Sam pudesse escolher os garotos que seriam mobilizados para abafar os estrondos de 1914, com o memorável “I want you”). Mas tudo mudaria a partir de 1918. Tinha que mudar. Já não seria mais conveniente que o governo de Washington se preocupasse apenas com atuações políticas que mesclavam essencialmente interesses comerciais com dosagens de políticas de poder basicamente restritas à Doutrina Monroe e a posições no Pacífico: deveriam considerar seu poder nacional como um todo, e como superpotência, e colocar a Europa nos cálculos de sua influência política para finalmente exercerem seu papel imprescindível na defesa dos interesses ocidentais. A supremacia norte americana já havia se esculpido e seu poder inconteste não poderia mais resumir-se a interesses com restrições meramente regionais, uma vez que a América espanhola já havia a muito se tornado América Latina operando sob engrenagens ainda que primitivamente capitalistas e perceber que o Velho Continente sozinho não poderia levantar-se das cinzas de 1914 e 1939 e resistir ou sequer barganhar contra a máquina de Stalin, que vinha demonstrando com nitidez sufocar o exercício da vontade nacional dos países balcânicos, deixando explícito ou implícito o algoz de que o compromisso com a Revolução Gloriosa não permitiria que ele se contentasse até que uma linha imaginária conectasse Vladivostok à Lisboa.
Embora tais idiossincrasias atemporais (sem mais delongas acerca da inviável retração do poder político norte-americano e dos prelúdios que precederam os acontecimentos que levaram o continente europeu à configuração de forças pós – 1945) sejam meras divagações metonímicas, são pertinências ilustrativas para a compreensão de que o verdadeiro Leitmotiv[iii] soviético nos Bálcãs é apenas uma parte dos planos para o triunfo do socialismo sobre o capitalismo e as democracias ocidentais[4]. A máquina imperial do leste não seria debruçada ali por mera casualidade das circunstâncias e muito menos por oportunidade vislumbrada no teor dos avanços contra os alemães pós batalha de Stalingrado (que Stalin soube muito bem tirar proveito do pretexto de que estaria libertando a Europa do nacional-socialismo na medida em que o Exército Vermelho esganava-se sobre o Leste europeu, até enfincarem suas botas em Praga, a partir do momento em que foram barrados graças aos “malditos” americanos). Todo um estratagema subversivo no exterior já vinha sendo engenhosamente estudado desde 1918, contra a Tchecoslováquia, num golpe de Estado em 1948 que de acordo com Paul Zinner[5], da formação do Partido Comunista Tchecoslovaco, organizado por um grupo tcheco de prisioneiros de guerra, o líder social democrata deste soviete, Alois Muna, seria a ponte humana (junto aos social-democratas Bohumir Smeral e Josef Stivin) para que fossem promovidas agitações a favor do bolchevismo, ao passo que fora devidamente instruído por Lênin acerca da metodologia revolucionária. (Para ver como as instituições democráticas brasileiras foram corroídas pelo germe, ver a obra de Suzanne Labin “Em Cima da Hora” e para compreender como a sovietização de Cuba não acontecera da noite para o dia, que o leitor tenha acesso a obra de James Monhan e Kenneth O. Gilmore, “A Grande Cilada”).
Mais do que apenas jogos subversivos difusos, a verdade sobre o projeto imperial de Outubro de 1917 gira em torno da sovietização universal, o que caracterizava o âmago da razão de estado soviética, a qual não consistia apenas na conversão e submissão mundial ao socialismo (o qual pudesse ser vários à medida que fossem desvinculados da Gestapo, como o Comitern chinês que adotou caminhos divergentes do que esperava o governo de Moscou, a partir de 1923), mas sim na suprema potencialização das vias e vertentes revolucionárias globais de modo que se tornassem conexas a uma aglomeração única e necessariamente vinculada à intelligentsia comunista internacional, sob o ativismo e prontidão de seu QG em Moscou. Isto quer dizer que quaisquer revoluções que brotassem deveriam ser submetidas ao controle direto da URSS, o que explica a III Internacional Comunista ter sido completamente apossada por Stalin (fato que levou Trotsky a criar sua pífia IV Internacional). Dada as dimensões territoriais da Rússia sempre terem sido, ao longo de sua história, de natureza supra-imperiais (tendo em conta o fato de ter o país a maior extensão territorial do mundo), seria logicamente irresistível que suas fronteiras não desejassem conhecer limites na busca de uma expansão constante e implacável por todas as direções possíveis até onde pudessem chegar, sendo, portanto, aquilo que manifestava, ultima ratio, a vontade maior do marxismo-leninismo sobre os auspícios de uma União Soviética robustamente militarizada.
Ipso facto, qual seria então o papel do Exercito Vermelho estacionar-se numa faixa territorial que contornava praticamente todo o Báltico, emendando Rostock (Alemanha) descendo o Mulde e o Elba, pegando a Tchecoslováquia, parte da Áustria e que era recheada pelos Bálcãs, se não fosse a completa e incondicional capitulação da Europa? Que seriam das ilhas britânicas, consideradas a barricada insular do Ocidente, se o Velho Mundo fosse por completo subjugado pelos profetas armados? Seria possível um outro “Dia D” na Normandia ou Gibraltar? Para onde toda a produção daquelas indústrias pesadas da Renânia, da Alsacia e Lorena seriam voltadas e designadas e para onde todos aqueles portos lançariam suas, agora, ilimitadas e incontestáveis esquadras? Mar do Norte? Atlântico? Mackinder pode responder.
[1] FEST, Joachim, No Bunker de Hitler, os Útlimos Dias do III Reich. Rio de Janeiro: objetiva, 2005.
[2] CHURCHILL, S. Winston, Memórias da Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro, 2ª ed. Editora Nova Fronteira, 1995. p. 944.
[3] Idem, op. cit. pp. 949-950.
[4] CADEMARTORI, Lindolpho, Notícias de Jornal Velho: pacto de varsóvia – a última grande ameaça européia, disponível em: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2653. Acesso em: 13 mar 2007.
[5] ZINNER, Paul E. Estratégia e Táticas Comunistas na Tchecoslováquia, 1918-48. Rio de Janeiro, Distribuidora Record, 1965. p. 34.
[i] Palavra alemã utilizada no título da película cinematográfica sobre relatos que remontam os últimos dias de Hitler (Der Untergang), que na íntegra significa “A queda”.
[ii] Originalmente denominada como Bigorna, mas alterada como precaução para que o inimigo não pudesse identificá-la.
[iii] Palavra alemã que significa “motivo condutor”, utilizado por Richard Wagner como técnica de composição musical, introduzida por ele em suas óperas.
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