Um desleixo para com o patriotismo americano poderia implicar em consequências graves para o país como um todo.
Resumo: que os chineses prostituem sua mão-de-obra inesgotavelmente barata já é por todos fato bem conhecido, mas permitir que o espírito nacional americano seja bordado no além terra e mar é pedir, numa conversa amigável, para que o rival prepare a bebida.
Uma reportagem recente do The Associated Press[1] divulga uma matéria peculiar a respeito da importação patriótica americana com a seguinte pegadinha: “o que é vermelho, branco e azul e feito na China? Muitas bandeiras americanas”. O assunto não chega a ser polêmica, mas dá algo a se falar quando a respectiva imprensa fornece estatísticas indicando que cerca de 5,3 milhões de bandeiras americanas, em 2006, foram importadas da China pelos Estados Unidos da América (segundo o U.S. Census bureau).
Os números em si não representam outra importância senão quando se diz respeito ao bom, velho e forte espírito nacional patriótico americano, pois do contrário os chineses estão apenas fazendo “a good business”. Fato que o Estado de Minnessota não deixa de fazer vista grossa ao advertir pela aprovação de uma severa legislação que condena o costureiro, ou aquele que estiver fazendo as roupas de Tio Sam fora de casa, numa multa de desprazerosos 1.000 american dolars (“cash, please”) e ainda noventa dias “in jail”.
Talvez isso tudo não adquira a relevância nacional de se praticar a rebeldia de se queimar a flâmula americana em praça pública, mas pessoalmente penso ter lá seu fundo de verdade quando se trata de patriotismo (ainda mais o desse povo). O Capitão William Driver deve estar rolando em seu túmulo ao consumar-se o fato de que a sua Old Glory está sendo costurada por aqueles que querem demais o lugar dos novos romanos (exceto pelo fato de que ainda faltavam duas estrelas quando ele a batizou assim). É possível imaginar que Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, James Madison, John Jay, John Adams, George Washington e os outros fouding fathers devem estar se remexendo em seus túmulos pela agonia desta pequena seqüela no brio patriótico que trouxe ao mundo a maior democracia que a ele pudesse ser apresentada. Thomas Paine ficou de fora, mas é bem provável que ele esteja tentando desencavar-se desesperadamente para lembrar a seus compatriotas de que, em uma nação, “o caráter é mais facilmente mantido do que recuperado”. Quanto a Thomas Nast, descanse em paz, pois a imagem de seu personagem sem as roupas de baixo não lhe agradaria nem um pouco, já que os chineses provavelmente não sabem que número veste Tio Sam.
O incômodo desses heróis do passado não poderia ser por menos, pois a bandeira que uma vez percorreu o velho oeste levando consigo o Destino Manifesto de uma nação plenamente constituída, se vê agora, após o aterrorizante 11 de Setembro, suprindo os ímpetos patrióticos do povo americano através de sua compra e venda no atacado da feira mais barata, claro, a China.
Em dois pontos esses “forefathers who lead the way” tem seus motivos por se sacudirem: primeiro, a maior nação do mundo desde 1914-18, 1939-45, 1945-89, até os dias de hoje, passou por diversos sistemas internacionais, sob várias formas de configurações e relações globais de poder, na plena consciência racional e prudente de que a sobrevivência do ocidente enquanto civilização não se mantém sem a exteriorização prudente dos cálculos políticos de sua razão de estado. Segundo, a conservação da firmeza de suas bases nacionais (nesses tempos de cosmopolitismo globalista) assegurando a paixão e brio patriótico de seus minute men, logo, pela manutenção viva e pulsante do espírito nacional americano, é condição imperiosa para o sustento da supremacia responsável pela proteção e preservação da liberdade na civilização ocidental.
Pelo contraponto, a receita para a queda do edifício americano e consequentemente ocidental está em boas doses de liberalismo cosmopolita injetadas nas veias políticas, facilitadas pelo altruísmo justiceiro de alguma democracia confinada à passividade. Dobrando à esquerda haverá muitos com seringas. Ao lembrar que Hitler alimentou-se dessa mesma índole passiva, impregnada nas democracias liberais pelo trauma de 1918, e que a URSS fora um projeto de poder, desde 1917, escancarado a partir de 1955 com a assinatura do Pacto de Varsóvia, temos que a segurança da liberdade ocidental, por todo este percurso, não pôde ser desassociada do papel desempenhado pelos Estados Unidos na América pelo século XX. Os franceses tiveram a sua Linha Maginot, os ingleses tiveram suas “costas contra o muro”, sua Dunquerque e suas “lágrimas, suor e sangue”, a Finlândia teve a sua Mannerheim, a Tchecoslováquia sua Conferência de Munique, a Alemanha sua bancarrota e seu muro. Com todo esse vazamento de perdição, alguém precisava fechar a torneira. Do contrário que seria deste mundo se a descoberta de Colombo e Américo Vespúcio ainda estivesse confinada a um mero quintal de terras do velho continente? “Bring the boys back home”, but send them back whenever it means.
Ainda que as declarações de um general chinês, Chi Haotian[2], quanto à necessidade do extermínio americano para a sobrevivência da China, invocando sua própria Lebensraum (antes pregada por Hitler, segundo uma Alemanha que precisava ampliar o seu “espaço vital”), os americanos parecem não se importar muito com isso, já que seu furor patriótico é negócio que deva sair barato a ponto de se comprar o próprio símbolo nacional daqueles que querem vê-los na lama. Não! Patriotismo é dever cívico, não é para sair barato e muito menos ser entregue ao desleixo, ainda mais se tratando de uma nação como a americana que carrega consigo tamanha responsabilidade para com a civilização ocidental e seus frutos culturais.
O Estado de Minnesota parece compreender esta importância e a condição política imperiosa de sua nação. Que o país aperte com vigor a fiscalização para certificar-se de que o seu “caráter nacional” vem sendo mantido pelo tributo prestado pelo amor, apreço e dedicação de seu próprio povo para com esta nação.
O menor dos desleixos, no que diz respeito aos laços patrióticos americanos entre nação e povo, poderá evoluir-se para um completo estado moribundo e vegetativo entre as duas instâncias, condição em que vislumbramos, então, o que acontece aqui na terra do futebol, do samba, do feriado e do carnaval. O dia em que os Estados Unidos da América deixarem suas ruas encardidas e entulhadas de lixo, hastearem sua bandeira nacional de quatro em quatro anos (desenhadas em papel barato a serem varridas para o lixo assim que acabasse a ocasião festiva), desenharem sua Old Glory no chão ou a fazerem de tapete, este será o dia em que eles terão se tornado Brasil.
Por aqui as coisas já estão quase prontas para o cosmopolitismo globalista empenhado pela ONU[i] e por todos os grupos liberais organizados pela esquerda internacional (por ONGs, multinacionais, meios de comunicação e think-tanks liberais). O puro desdém para com hino, símbolos e bandeiras nacionais é tamanho que o país já há muito se perdeu num estado de coma e inconsciência nacional.
Que os chineses prostituem sua mão-de-obra inesgotavelmente barata já é por todos fato bem conhecido, mas permitir que o espírito nacional americano seja bordado no além terra e no além mar é pedir, numa conversa amigável, para que o rival prepare a bebida. Equivale moralmente, em pleno ritual político, a consentir em comprar a alma do diabo.
[1] Should American flags be imported?, disponível em: http://www.stltoday.com/stltoday/news/stories.nsf/nation/story/3620DD1D6E080EC78625730E001002BC?OpenDocument. Também disponível em: http://www.stltoday.com/blogs/news-talk-of-the-day/2007/07/should-american-flags-be-american-made/, acesso em: 06 de Julho de 2007.
[2] War Is Not Far from Us and Is the Midwife of the Chinese Century, disponível em: http://en.epochtimes.com/news/5-8-8/31055.html, acesso em: 06 de Julho de 2007.
[i] Observando a estrutura da ONU (http://www.un.org/english/) não é preciso ser um expert em política internacional para enxergar que seus estertores pressupõem a maturação de um “neo-helenismo” para o assento de um império universal.