quinta-feira, 29 de março de 2007

O Mito da Desigualdade Social

A mesma facilidade que o nacional socialismo tinha em ludibriar as massas e jogá-las contra inocentes demonizados, através de discursos encolerizantes ofuscados com versos, símbolos, palavras e gesticulações subliminares, o socialismo e suas vertenes esquerdistas também não encontram nenhuma dificuldade em fazê-lo com a proliferação da pobreza por meio de seus métodos de estatização.

"A felicidade não depende do que nos falta, mas do bom uso que fazemos do que temos."

- Thomas Hardy

Resumo: Pelo “beabá” sublime da “desigualdade social” e seu dito combate, facilmente as massas de um país morderão a isca e inconscientemente se comportarão de acordo com as regras do jogo do intervencionismo, estatização e nacionalização de empresas privadas e marchem nas direções apontadas pela esquerda, sob a agitação da bandeira socialista.

Este é um manuscrito de poucas esperanças de repercussão, mas cuja índole conservadora deixará transparente sua pequena marca, impressa dentre outras que refletem a consciência reacionária de não permitir que se alastre desenfreadamente a influência da esquerda política em esferas de uma sociedade, que busca edificar a mentalidade de determinado povo na educação, comunicação e política. Na educação, que facilmente pelo cotidiano da responsabilidade estudantil, torna-se possível a construção do perfil social sob as repetições professorais da ideologização coletivista (cujas mentiras incontestáveis vão desde livros primários às complexas doutrinas de linguagem técnica acadêmica) e no setor de comunicação substancialmente, como veículo direto, voltado para o reforço da “ideocracia” – que conta com o apoio político de burocratas que dão corpo, voz e alma a estas vigas arregimentadas por estes três tendões articulados por uma esquerda que seja predominante em qualquer país, preferindo o Brasil como modelo mais próximo disso.

Uma das mais importantes distorções mentais geradas por esta influência nociva gira em torno do que vem a ser a natureza da “desigualdade social” e principalmente a metodologia acreditada para seu combate. A expressão é capenga até no nome. O termo correto para ela seria desigualdade econômica, já que se trata de um desequilíbrio entre uma parcela da população que não possui a capacidade lucrativa para o devido poder aquisitivo de necessidades básicas e estéticas provenientes de um acesso direto ou indireto ao mercado consumidor de bens e serviços. O acréscimo da palavra “social” à nomenkatura busca apenas sua adequação aos parâmetros ideológicos estipulados e planejados em cada repetição lecionada ou palestrada, informatizada, discursada ou substancialmente ventilada na jurisprudência e na lei de um Estado de Direito assim concebido.

Há de se considerar que os problemas de uma sociedade que giram em torno da pobreza acentuada de um país, devam ser considerados antes de mais nada como problemas administrativos sob o viés da esquerda estatizante e de sua mentalidade missionária. Esta se sustenta nas premissas ideológicas e construtivistas do socialismo massificador, onde o mote da "justiça social" é utilizada para justificar a obesidade estatal (baseada na reprodução desenfreada de estruturas públicas, voltadas para o gerenciamento de políticas sociais e que para tanto o rol de impostos deverá obrigatoriamente ser sempre maior e mais pesado, tendo em vistas a sobrevivência e a persistência deste imperialismo público, resultando no assento e na manutenção de uma burocracia intervencionista).

Não há democracia neste mundo que aqueça sua economia sob a mentira do assistencialismo estatal (baseado nas porcarias keynesianas que endossam esse paternalismo) e seus programas que mimam toda uma população, abocanhando a renda da classe média, de gente que realmente se esforça pelo conforto. Pobreza e miséria não se combatem com mimos, caridade ou assistencialismo, mas sim com a determinação individual em alcançar metas, impulsionadas no forte desejo de lucrar, fazendo do acúmulo de capitais a maior fonte de enriquecimento já existente, pois este direito não pode ser negado ao homem de empresa, ao comerciante, e muito menos ao pobre que irá se mexer para conseguir uma pequena fonte de renda. A história do Sr. Abravanel – o Silvio Santos – e Zezé de Camargo e Luciano, são bons exemplos concretos para esbofetearem qualquer esquerdista e suas sociologias anormais – as mesmas que colocam delinqüentes de volta às ruas em poucos dias e endossam seus perfis e métodos psicopatas na transferência da culpa para caldo social, independente de esquartejadores de crianças, como do menino João Hélio, serem provenientes de berço familiar, possuírem religião e o devido acesso à educação. Mas isso o leitor há de ter estômago forte.

Quão esdrúxulo é alguém dizer que esta chance é negada aos pouco providos, uma vez que a história do povo judeu é repleta destes acontecimentos, sendo interessante observarmos o fato de sempre terem se destacado como grandes comerciantes dispersos na Europa, levando consigo o pesado fardo do preconceito e da inveja, sem nunca terem sido escoltados pelo afago inconveniente de um Estado assaltante (até porque durante séculos nunca tiveram ou precisaram de um para deixarem seu legado). Isso prova como o uso inteligente do trabalho, seja ele uma simples atividade que produzirá um pequeno montante de renda, susceptível de acúmulo, poderá tornar possível que qualquer indivíduo consiga maior bem-estar, combinando a determinação do suor laboral com um mínimo de malícia e perspectiva mercantil, desde que lute para isso. A sociedade européia do século XIX, reconhecida pela fertilidade do capital que tornou possível alastrar a noção de capitalismo, nação e nacionalismo para o restante do mundo através dos vastos e incontestáveis impérios, seria inconcebível sem o estabelecimento de uma classe média e burguesa que buscasse sua ascensão e conforto por vias da determinação individual, perspectiva de mercado e livre iniciativa.

Se para os lunáticos da farsa esquerdista que balbuciam sobre a luta de classes de um profeta comunista alemão, então por que, praticamente, não existem pobres na Noruega, Suécia, Holanda, Finlândia, Suíça, Áustria, Alemanha, Bélgica? Se a maldita profecia da eterna exploração de uma minoria sobre uma maioria deteriorada é inconteste, então o que explica a concepção de sociedades tão férteis nos auspícios da abundância? Caso seja pelos motivos da nauseante ladainha acadêmica e botequeira de uma certa divisão internacional do trabalho (do Norte explorando o Sul) que impede países mais pobres crescerem, então me expliquem qual a vantagem e principalmente a lógica de países capitalistas, que funcionam rapidamente sob as poderosas e dinâmicas engrenagens da economia de mercado, buscarem suprimir outros mercados menores ou deteriorar suas bases para a dita manutenção de suas riquezas, sendo que as vantagens são percebidas por ambos os lados, seja pelo fornecimento de matérias primas ou pela absorção tecnológica que modernizam a infra-estrutura de um país em desenvolvimento? É puro charlatanismo daqueles que levantam o dedinho professoralmente para soltar diarréias verbais que não se apóiam em outros fundamentos senão naqueles chavões populistas de poucas palavras, os quais as massas parecem gostar de ouvir e se fazerem capachas. Foi com a absorção do raciocínio e das metodologias do capitalismo empresarial que hoje China, Índia e outros países podem ser chamados de "Tigres Asiáticos", da mesma forma que o Japão absorveu as novas concepções ocidentais na Restauração Meiji, sob o forte conservadorismo de suas tradições e costumes.

A luta contra a pobreza só poderá ser eficaz com o encorajamento do instinto natural do Homem e sua eterna busca pelo conhecimento, poder e glória, sendo o poder elemento inseparável do seu relacionamento social e imprescindível para a compreensão das relações humanas. A natureza humana é fundada na disputa, no desejo de desbravar, conhecer, inventar, criar e competir. Foram estes corolários que contaram a História da humanidade e, mais especificamente, que fizeram da Europa o Velho Continente culturalmente rico e irradiante; que tornaram plausível a indagação de por que o Ocidente venceu; que fizeram da Grécia antiga o primeiro espetáculo ocidental e Roma a primeira civilização universal; que transformaram a Grã-Bretanha na "oficina do mundo" e que edificaram as bases do maior fenômeno cultural desde os tempos da iluminada Roma, os Estados Unidos da América. Negar estes corolários ou suprimi-los na substituição de seu curso natural por uma instância politicamente institucionalizada é simplesmente bater contra a História e o próprio Homem por ela observada, restando apenas a desconfiança de que esta supressão não é feita ocasionalmente pelo acaso, mas meticulosamente deliberada por uns poucos que pretendem o alcance ávido por poder político (eu lhes apresento a esquerda). É o que torna o mito da desigualdade social apenas uma ferramenta para que este propósito seja concretizado.

Como exemplo hipotético desta verdade, peguemos uma das republiquetas latinas americanas (sem dinheiro no bolso) como objeto de avaliação. Digamos que um corso silvícola boliviano na presidência de seu país remoto nacionalize todas as empresas estrangeiras que ali em seu território fornecem emprego, proporcionando mais renda para a maximização do consumo em sua diminuta economia, alegando sob o ranço de que elas estariam ali para a "colonização" de seu país. O corso irá afastar grande parcela dos investimentos externos por não haver qualquer credibilidade por parte de seu governo tribal, fazendo com que sua dependência praticamente absoluta do estrangeiro seja compensada por acordos bilaterais entre outros líderes menos capacitados que apóiam suas medidas desordeiras, favoráveis a estatizações que serão devidamente mantidas pelos fraquejados investimentos governamentais, culminando num parque industrial inexistente e numa infra-estrutura capenga. Daí haverá dois caminhos únicos a serem comedidos: ou o cacique abra mão de suas idiotices políticas e rebole para os investidores externos acreditarem que ele agora tomou juízo, ou então mantém sua agenda ideológica, arrastando seu país e sua população ao estado vegetativo da pobreza e miséria. Se adotar o primeiro caminho ele será taxado de direitista asqueroso e servente do "neo"liberalismo a serviço do imperialismo de Washington, pelo próprio povo já escravo de sua mentalidade corrompida pela maquinação do coletivismo ideológico, bem como seus vizinhos que ficariam bastante desapontados com seu giro cento e oitenta graus.

Mas ele faz parte do Foro de São Paulo como participante ativo das sessões que colocam em pauta a agenda da integração regional, sob os estandardes do socialismo que polarizam inúmeras vertentes na forma de organizações como o MST e as FARC, contando ainda com o maciço apoio do Eixo Carácas-Havana-Brasília e, portanto, optará pela segunda via. A maciez com que o governo petista tratou a nacionalização boliviana, em mesmo endossar a medida, comprova seu lugar junto à gangue. Contudo, diga-se de rápida passagem que o Brasil perdeu uma grande oportunidade para demonstrar seu poder e liderança no continente sul americano. Uma mobilização de efetivos militares contra o pífio poderio da nação boliviana faria com que o governo brasileiro ganhasse o devido respeito externo de que nós estaríamos dando os primeiros passos para a responsabilidade de um país sério, compromissados com os interesses da nação, sejam eles de qualquer natureza. Somente um governo realmente de direita conservadora poderia arcar com tal compromisso, já que é seu mérito raciocinar prudentemente dentro dos cálculos políticos, na lucidez de que o poder não é o fim em si, mas seu objeto de estudo e prática.

No entanto, a opção boliviana de afundar o próprio país garantirá um enorme turbilhão de miseráveis e desta forma incitar convulsões sociais, gerando a desestabilização ideal para manobrá-los contra a ordem, no intuito de transformar toda a América Latina numa maquete do caldeirão borbulhante que é hoje a Venezuela. Como Evo Imorales conseguirá erradicar a fadiga da pobreza de seu povoado, intimidando a confiança do homem de empresa e do investidor externo, uma vez que seu país praticamente não se locomove sem o provimento de alguma coisa que venha de fora? Para a revolução continental, a pobreza é um bom negócio, mas de qualquer forma, a venda de coca em larga escala parece ser um bom negócio, ainda que destrua centenas de vidas saudáveis e as lance para o nada.

A esta altura a justificativa do gasto público como salvação já está bem batida e no caso do Brasil, o assalto tributário às classes médias e de alta renda são exclusivamente para a manutenção das práticas de estatizações e monopólio governamental na prestação de bens e serviços. Mas se é pela "justiça social" então está correto. No Brasil isto é bem aguçado, lembrando que a propaganda petista a poucos dias da infeliz reeleição reforça esta realidade: "não vamos permitir que eles (PSDB-PFL) privatizem mais nenhuma empresa do povo". É claro, a "empresa do povo"; somos uma democracia certo? Democracia é o "governo do povo", certo? Então viva os impostos, tributarismo, intervencionismo. Está tudo certo, pois será tudo feito pelo social, pela igualdade social, pela justiça social (por que não inventaram ainda o "aquecimento social"?). Desculpem-me, mas não sou pato sentado. Há mais enxofre no nosso Estado de Direito do que qualquer flatulência marxista pode liberar.
Contudo, espero que a "mão cabeluda do imperialismo Yanque", como alucinou Hugo Chavez, mostre o quão esta esquerda farrista se apóia em moralismos abstratos para ludibriarem e, então, manipularem os pobres que facilmente identificam de pronto a linguagem simples e sublime dessas bocadas virulentas, para então atirá-los contra a ordem e os símbolos da prosperidade. Hugos Chavez, Fidelgos, Devils Morales, Lulas, PTs, "Sáderes", Chauís, Foros de São Paulo, Foros Sociais Mundiais, MSTs, políticas sociais, assistencialismos, toda a turma e suas camisetas da hora necessitam da gula do poder pelo poder. Para consegui-lo vendem a falsa propaganda do paraíso da igualdade de fato, disseminando a miséria sob suas bandeiras sublimes do socialismo e suas práticas administrativas, para então manipularem os massificados dentro da ciranda cirandinha do populismo. Sem miséria não há farra, não há manipulação, não há Estado intervindo, não há estabelecimentos públicos, não há Estado Máximo, pois dificilmente um povo realizado pelo mérito, pela satisfação individual (e, portanto coletiva), não será socialmente frustrado ou mentalmente deteriorado a ponto de que seria mesmo impossível um charlatanismo populista desfraldar-se e fazer uso da massificação para direcioná-los contra a ordem. A consciência individual bastará para colocar por baixo a agitação populista e pouco se motivará a ceder-se às paixões inflamadas do coletivismo idealista.

Isso explica porque a nacionalização de empresas e refinarias, a estatização da prestação de serviços e de atividades produtivas em setores estratégicos de uma economia e todo o monopólio de tudo o que for declarado como de interesse social pela lei, está vinculada a esta vontade de poder manifestada pelas esquerdas. Sem apoio das massas não há como realizar este projeto de poder esquerdista: por isso a doutrinação socialista é tão eficaz na criação de uma moralidade que retribua seu apoio consciente ou inconsciente para o estabelecimento deste projeto, seduzindo as massas pelo seu conteúdo e sua linguagem encolerizante que simulam ideais de justiça, de liberdade, igualdade, fraternidade e verdades absolutas, fazendo com que esta doutrinação seja enxergada e aceita de fato como fonte moral. Por fim, as outras minúcias serão preenchidas no governo. (Enquanto os livrecos primários demonizarem o capitalismo para crianças que acabaram de aprender a escrever, não há de se espantar quando acadêmicos se tornam ovelhas negras em universidades como a USP).

O leitor por um instante poderá encarar o texto com também charlatão e pouco imparcial, mas creio que uma sóbria reflexão poderá levá-lo ao discernimento da desinformação panfeltária de esquina, de uma argumentação consistente a que o autor presta-se na tentativa de fazer, ou seja, deixar claro que a esquerda usa a mascara da “desigualdade social” para gerar a própria “desigualdade social” como meio eficiente para a satisfação de seus objetivos subversivos. Ela depende da agitação em torno de abstrações sustentadas em nomenklaturas “sociais”, tendo as massas desestabilizadas e frustradas como objeto de manobra ao vender sonhos ilusórios de prosperidade e bem-estar coletivo: tudo como ingredientes primordiais para seu deleite na embriagues do êxtase de governar por meio de projetos leis, desapropriações, estatizações e tributos. Desvincular a manipulação da expressão "desigualdade social" pelas esquerdas políticas e de qualquer outra justaposição de palavras derivadas da terminologia “social” para efeitos morais e ideológicos, ludibriando a crença da erradicação da pobreza por meio de gastos públicos, seria o mesmo que, matematicamente, querer dividir por zero na busca de algum resultado.

Não é difícil perceber que a esquerda educa muito bem. E pelo adestramento do “beabá” sublime da “desigualdade social” e seu dito combate, facilmente as massas de um país morderão a isca e inconscientemente se comportarão de acordo com as regras do jogo do intervencionismo, estatização e nacionalização de empresas privadas, marchando nas direções apontadas, sob a agitação subversiva da bandeira socialista.

terça-feira, 27 de março de 2007

Hiroshima e Nagasaki: duas cidades que salvaram o mundo – Parte I


Antes mesmo do Pacto de Varsóvia, a União Soviética demonstrou o que sua inequiparável inteligência comunista seria capaz para colocar de joelhos a velha civilização européia e todo o mundo.



Resumo: Stalin sabia antecipadamente do ataque alemão, em 1941, e escancarou as portas da Rússia soviética como parte do projeto de preponderância sobre todo o continente europeu.


Aonde tudo começou

Hiroshima e Nagasaki; seis e nove de agosto de 1945 não poderiam ter ocorrido sem que eventos muito anteriores se consumassem há três décadas atrás (exatamente 32 anos): seis e nove de agosto daquele ano não poderiam lamentar o mundo sem outubro de 1917. O lugar? Rússia.

Sob uma perspectiva histórica e secular de que esta autocracia, então czarista, sempre fora apresentada ao mundo como um gigantesco locus de serventia e autoritarismo, como conseqüências naturais provenientes de sua formação e desenvolvimento histórico, ao meio de histerias e convulsões que sempre temperaram a constituição de seu corpo social, próprias de seu processo de existência no qual dera forma a suas proporções físicas bizarras.

Tomando-se pela perspectiva de que a Rússia sempre se constituiu num recinto de anomalia política (moldada por sua história conturbada), temos que o período percorrido de 1917 a 1991, nos fornece a prova concreta de que ela alcança a verdade. Pois ao observarmos este percurso lastimável que obscureceu as luzes do século XX, resta apenas atestarmos outra verdade que deriva da primeira anterior: a de que acompanharam o nascimento e a morte de uma das maiores perversidades parida da História mundial, cuja índole fora maturada pelos séculos de sua existência e edificada a partir de seu único corolário cultural e única tradição da qual pudera caminhar e moldar seus caminhos: a barbárie.

A este autor caberá nas próximas entrelinhas fazer uma exposição de cunho acadêmico e científico sobre os aspectos históricos daquela que veio ao mundo como um tumor, um câncer para as gerações de seu tempo, cujos efeitos foram sentidos pelas gerações subseqüentes (e ainda o são), ao dela brotar sua cria responsável por condenar sociedades inteiras à perpetuação de suas mazelas. Eis o comunismo, eis a história de um desastre político, eis o fruto desta colheita.

Eis o que foi, sem nenhum remorso de seu fracasso hediondo, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.



O homem sábio de neanderthalensis

Stalin foi mais consciente das necessidades exigidas para o desenvolvimento e mesmo a sobrevivência da loucura que foi o desastroso fenômeno da URSS, do que qualquer outro plenipotenciário soviético poderia ser. Ele não dotava da sagacidade intelectual de Winston Churchill (e muito menos de sua elegância e postura), mas sabia do que suas repúblicas socialistas e a agenda revolucionaria mundial precisavam naquele momento: a chance das animosidades revolucionárias triunfarem era aquele ao meio das convulsões que abalaram as economias das democracias liberais do ocidente, na Primeira Guerra Mundial e no crash de 1929.

Não poderia haver outra oportunidade. A URSS não poderia projetar-se como potência mundial se preferisse optar por um planejamento gradualista bukharinista[i] (como o economista socialista polonês, Oskar Lange, acreditava equivocadamente ser o melhor caminho a direcionar os Planos Qüinqüenais soviéticos). O longo prazo não era uma opção, pois a União Soviética teria que deixar de ser uma fazenda feudal para se tornar uma senhora da guerra, da noite para o dia, no curto prazo: pela reprodução desenfreada e aleatória de indústrias pesadas e pela exaustão das próprias massas camponesas (donde o regime dos Gulags[ii], entre 1918-56, e as políticas de confisco e deportação eram reflexos dessas premissas).

Ela precisava se embrutecer rápido, aproveitando o momento de fraqueza do ocidente (isolado da política americana até 1944, sem levar em conta a intervenção militar em 1917-18). Isso nunca escapou aos olhos de Josif Stalin e, para seus fins algozes, nem poderia. Com o ocidente agonizando no período de convulsões acarretadas na crise de 29, num cenário que proporcionou, ainda, a ascensão do facismo na Europa, as crises nacionalistas dos países na cordon sanitaire (ou cinturão de quarentena, como ficou conhecido o fiasco do remapeamento europeu pós-1918, aos moldes dos quatorze pontos de Woodrow Wilson, na tentativa de isolar a ameaça soviética com a criação de estados não comunistas, na região dos bálcãs) criados com o desmembramento das Casas da Áustria-Hungria, do Império Otomano e do II Reich alemão (quando um “corredor polonês” colocou a prússia oriental fora da Alemanha, seguida de uma ocupação na Renânia), os aplausos calorosos ao Destino Manifesto como presságio para a substituição do modelo capitalista, as ondas revolucionárias subseqüentes à tomada do Palácio de Inverno, naquele outubro de 1917, somando-se à introspecção política americana e a saída ilesa da URSS dos efeitos da Depressão de 29, a conturbação internacional das primeiras décadas do século XX foram imprescindíveis para a formação do status de superpotência da União Soviética, pois criaram um political enviroment ideal para a projeção de seu poder marcado pelas décadas do pós guerra de 1945.

Josif Stalin não perdeu seu cometa; seu pedido fora realizado. Uma das primeiras medidas empregadas de caráter externo, foi a apropriação absoluta da III Internacional Socialista, para que as revoluções estourassem com algo que as vinculassem ao seu QG principal, Moscou. A abolição da Nova Política Econômica (NEP) para dar espaço aos Planos Qüinqüenais instituídos por ele, em 1928, pode ser entendida como uma projeção para as políticas da autocracia administrativa. No campo criaram-se, pelo confisco de terras, as kolkhozes e os sovkhozes, ou cooperativas agrícolas e enormes fazendas estatizadas, respectivamente. A industrialização teria de ser forçada a todos os limites, sem muitos entraves, pois a indústria de capital era o coração da produção bélica necessária para a escolta dos objetivos externos

Se Moscou precisasse de um outro QG para a revolução, este deveria ser Berlim, como sempre teve em mente, desde o princípio, Vladímir Ilitch Uliânov, Lênin. A Europa nunca tivera pouca importância para a Rússia (que sempre desejou para a região balcânica sua imagem e semelhança). A “uRssia” não poderia perder isso de vista; o velho continente era seu principal objetivo.



Kanem

A sodomia soviética para com o mundo pareceu fantasiosamente por muitos anos tentar de uma forma grosseira e atroz, equiparar sua torpeza abominável aos mitos wagnerianos das culturas e tradições nórdicas medievais que remontam os bárbaros e os deuses do Valhalla, bem como os heróicos cavaleiros destemidos sob os épicos cenários das montanhas e florestas folclóricas alemãs. Tudo pareceu dar forma a uma frustração impetuosa sustentada numa gana mortífera por uma verdade universal que perdurasse até o último suspiro da História: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas desejaram em si o retorno da Kanem[iii] para seus domínios e revitalizar em sua razão de estado aquilo que fora o mais perdurável vasto império aos olhos da História. Mas para que se compreenda as origens deste espetáculo totalitarista é necessário antes conhecê-lo como parte de um projeto muito bem arquitetado desde Outubro de 1917, mas realmente executado a partir de junho de 1941, quando o avanço alemão contra as fronteiras da Rússia soviética nos revelaram a face de Um Stalin Desconhecido[1] – cuja obra de Zhores Medvedev nos revela a verdadeira face daquele homenzinho levado e malicioso que já sabia o bastante e sobretudo a tempo suficiente sobre as mobilizações de Hitler nos Bálcãs, muito bem informado pelos relatórios de seus oficiais do Kremlin. Stalin sabia de tudo e ao invés de mobilizar suas reservas estratégicas e colocá-las em prontidão ele tinha algo melhor em mente: escancarar as portas da Rússia para o Angriff (ataque) alemão. Mas por quê? Para a concretização do projeto de preponderância suprema sobre todo o continente europeu, em sua integridade (e consequentemente sobre todo o mundo).

A partilha da Polônia em 1939 e ainda os acordos comerciais e políticos entre Stalin e Hitler pareciam aos olhos do observador da II Grande Guerra que a Alemanha havia adquirido uma significativa vantagem sobre os soviéticos, dado o fato de que a credibilidade de um regime facista como o nacional-socialista, não se esforçaria muito por manter a Pacta Sunt Servanda (os contratos devem ser respeitados) de clausulas de qualquer natureza política, onde definitivamente a Rebus sic Stantibus seria a regra (se tudo permanecer igual). Ao passo de que o observador distraído se engana acreditando na ingenuidade dos Ivans ao se mostrarem indiferentes às duvidosas concentrações de forças alemãs na Polônia (rumo à Cracóvia, nos montes Cárpatos), o mínimo exigido pelo governo de Londres seria um mínimo de preocupação. Mas por que Hitler, então, ordenaria uma maciça mobilização de tropas da Frente Ocidental (já devidamente subjugada com a capitulação francesa após o rompimento da ridícula defensiva posicionada na Linha Maginot), após os fracassos da Operação Leão Marinho – desembarque anfíbio, sobre o Canal da Mancha, contra a península britânica em julho de 1940, remontando as mesmas pretensões do Almirante Medina da Espanha, em 1588, e Napoleão Bonaparte até ratificar o Decreto de Berlim, em 1806, o famoso “bloqueio continental”? Hitler adiou a operação no Mar do Norte sem jamais voltar a empregá-la, embora mantivesse Londres sob pesados bombardeios (liderados pela aviação de Görig) o que lhe permitiu manter os britânicos devidamente afastados da Normandia (norte da França), o que criou a oportunidade mestra para que seus planos já a muito reservados para a Frente Oriental, pudessem ganhar atividade, cujos preparativos ganhou o nome de Operação Barba Roxa: invadir a URSS. Desde que Hitler subiu ao poder em 1933 (ocupando a chancelaria do Reichswehr), a Alemanha vinha se engajando segundo planos que fossem condizentes com a estratégia de uma guerra célere, portanto seus sinais já poderiam ser reconhecidos pela inteligência soviética antes mesmo de 1939 (ainda mais que o Plano Schlieffen de 1905 fora, de certa forma, readaptado na estratégia de guerra alemã). Um incidente ocorrido na Iugoslávia, quando o país deixou a neutralidade para se juntar aos britânicos, a Operação não poderia ocorrer no mês de maio, o que forçou a paralisação temporária da Barba Roxa para que aquele país fosse ocupado. No entanto, uma vez conquistada a fácil vitória, os efetivos militares logo tornariam a seguir seu rumo à Cracóvia. Mas o que a ingênua União Soviética fazia que se manteve indiferente aos claros movimentos do exército nazista? Debaixo dos tapetes do Kremlin, Stalin se fez de macaquinho cego, surdo e mudo.

Diferentemente do Tratado de Brest-Litovisck, de 1917, o Tratado Ribbentrop-Molotov[2], de agosto de 1939, substancialmente um acordo de não-agressão firmado entre a União Soviética e a Alemanha, não tinha como objetivo o alcance de uma paz fosse estabelecido num período de dez anos (como consta no artigo VI do Tratado), mas algo que, aos olhos do observador atento, serviu apenas como o maior pretexto de Stalin para entregar à Hitler um convite absolutamente irresistível para uma invasão contra o território russo. Façamos uma análise do tratado e veremos como ele foi estabelecido para favorecer tamanha vantagem para o ditador facista, a começar do artigo I em que “os contratantes se obrigam a desistir de qualquer ato de violência, qualquer ação agressiva, e qualquer ataque um contra o outro, tanto individualmente como juntamente com outras forças”. Tão vago quanto uma linha de raciocínio que tem começo, mas não tem meio nem fim e principalmente, desprovido de quaisquer restrições por parte do governo de Moscou, num cenário em que nada poderia estabelecer limites ao poderio alemão, resumindo-se apenas em estipular que disputas ou conflitos levantados entre as duas partes deveriam ser solucionadas amigavelmente (constante nos artigos VI e V). E um outro ponto gritante se faz no momento em que Hitler redireciona suas divisões para a Polônia, depois de ter ocupado a Iugoslávia que havia declinado sua neutralidade para o lado dos britânicos. Se um acordo de não-agressão é firmado entre dois países, se faz perfeitamente clara a pretensão de não respeitá-lo a partir do momento em que um dos lados estaciona tropas e divisões em perímetros próximos das fronteiras demarcadas pelo outro, pois como se faz latente o artigo II do “Protocolo Adicional Secreto”, “na eventual reorganização territorial e política nas áreas pertencentes ao Estado da Polônia, as esferas de influência da Alemanha e da URSS deverão ser ligadas pelas linhas dos rios Narev, Vistula e San”, onde um bild-up de forças na cidade de Cracóvia significaria sim o desejo de avanço (algo que em torno de 120 divisões, estando inclusas 17 divisões blindadas e outras doze motorizadas, mais seis divisões romenas, somando outras 26 divisões na reserva, gerando um total aproximado de 150 divisões apoiadas com quase 3.000 aeronaves, podem ser considerados como um verdadeiro entulho intimidador de recursos militares, como testemunha Winston Churchill[3] em suas memórias).

O urso não poderia resistir ao pote de mel entregue aberto e por isso o Führer e nem mesmo Churchill poderiam tomar conhecimento da trama soviética ao meio de tantas preocupações militares e estratégicas. A violação da Linha Mannerheim (Finlândia), em 1938, que acarretou a expulsão da URSS da Liga das Nações deixou bem claro os interesses belicosos sobre a Europa (alertando as posições alemãs) e o esquartejamento da Polônia serviram apenas como maquiagem para a maliciosa ingenuidade soviética, já que desde a Primeira Guerra Mundial (e desde sempre) a Alemanha esteve ciente dos interesses da Rússia em ceifar os Bálcãs, assim como Stalin sabia perfeitamente que Hilter reservava planos de guerra de duas frentes, pois 1939 não poderia estrategicamente ser diferente de 1914 para os alemães, uma vez que a predominância de seu poder inconteste na Europa dependeria do sucesso total do exército nazista estrangular novamente a França e em seguida, von der Mass an die Memel[iv], rumar para Cracóvia[v] e de lá arregimentar uma ofensiva contra a União Soviética (sob o raciocínio estratégico lógico de que mais cedo ou mais tarde ela abocanharia toda a região balcânica). E por que oferecer tamanho sacrifício por parte dos soviéticos? Para que os exércitos de Hitler se esgotassem na Frente Oriental e Stalin pudesse contra-atacar com o Exército Vermelho e subjugar toda a Europa, as custas do apoio britânico que logicamente seria oferecido à União Soviética por agora lutar pela queda nazista (onde a retirada dos alemães da Batalha de Stalingrado representou o clímax do projeto soviético – momento em que utilizaram do contra-ataque para expulsá-los de seu território e penetrar maciçamente na Europa).

Mas por que então sacrificar parte da fronteira russa, na Frente Leste, para depois utilizar de uma contra ofensiva para a ocupação da Europa e não simplesmente poupar recursos e estruturar logo uma empreitada contra o leste europeu? Antes de qualquer jogada impetuosa, o necessário durante os primeiros anos da guerra para os soviéticos seria primeiramente a cautela – a Rússia soviética tinha a consciência de que seu território contava com a importante defesa natural de seu inverno rigoroso (o mesmo que massacrou as tropas de Napoleão). Ela daria uma vantagem defensiva imperiosa ao lado da assistência britânica e cumpriria sua parte no desgaste da ofensiva nazista. Portanto, aquilo que se constituía o pilar mestre de todo o projeto de sovietização do continente, baseava-se em cinco estágios fundamentais, sustentados nas premissas que viriam a:

I) oferecer à Alemanha a vantagem da vigência de um tratado de não-agressão entre o comunismo e o facismo, na consciência de que ele seria inevitavelmente rasgado pela primeira mais cedo ou um pouco depois, assim que os britânicos se retirassem da França (em Dunquerque) e a França fosse por ocupada por completo (estabelecendo o governo de Vichy);

II) dar segurança à Hitler de que seu plano para uma guerra de duas frentes seria mister para a preponderância do III Reich, fazendo-o acreditar que a qualquer momento o gigante do leste poderia mobilizar um maciço ataque contra os países balcânicos, fazendo uma pequena refeição militar na Finlândia, atravessando o Istmo de Mannerheim, como um falso sinal desta iminência;

III) aguardar à espreita o momento decisivo, pois que as divisões Panzer e a Luftwaffe ainda detinham a preponderância de fato sobre toda a porção territorial que rodeava a Alemanha e um embate direto naquele momento do auge da Blitzkrieg, até 1941, acarretaria no gradativo e consistente desgaste de recursos e efetivos soviéticos, o que resultaria numa União Soviética esgotada e estéril, mesmo com a consecutiva assistência externa dos britânicos;

IV) aproveitar dos erros estratégicos de Hitler[vi] e do seu golpe então desferido contra a Rússia soviética que por conseguinte incitaria a inevitável e imprescindível suporte britânico marítimo via Ártico, com destino à Murmansk e Arcangel, e terrestre no Oriente Médio via Teerã, sem os quais os Ivans não poderiam conter o avanço nazista na Batalha de Stalingrado (a cidade não resistiria e Hitler daria as mãos ao império do sol japonês, interligados por um imenso corredor asiático);

V) utilizar, finalmente, o pretexto da promessa de libertação da Europa do expurgo nazista, na medida que o Exército Vermelho desfilasse por todo o continente, empurrando o exército alemão até onde pudessem (que graças aos americanos foram barrados no coração da Europa, em Praga).

Este foi o primeiro plano mestre edificado contra a velha civilização; o segundo fora mais escancarado e ganhou o nome de Pacto de Warsóvia. Quanto ao primeiro, numa acepção ilustrativa, no xadrez por entre suas infinitas propriedades e estratégias, o sacrifício de uma peça significa um convite ao adversário a capturá-la como uma isca, para que mais a frente seus efeitos nas próximas jogadas possam mudar completamente o jogo a favor daquele que maliciosamente colocou sua unidade guerreira à mercê da capitulação irresistível. A Europa foi este tabuleiro e Stalin se revelou um verdadeiro enxadrista, quase na pele de um Kasparov totalitário. E foi ao meio de jogadas mirabolantes e com um sacrifício arquitetado e impressionantemente malicioso que a Kanem desejava retornar e desta vez para nunca mais ser esquecida, ainda que fosse encarnada no comunismo embrutecido da Gestapo, que maliciosamente trabalhou para que ela pudesse ser acolhida sob o novo deleite rubro. A Kanem Soviética veio para ficar e expandir-se na avidez de fazer penetrar as veias de seu tecido grotesco em cada porção continental que pudesse se alastrar; em cada território e em cada sistema político que pudesse atrofiar para que neles fizesse circular o sangue comunista.

[1] MEDVEDEV, Zhores A. Um Stalin Desconhecido, Rio de Janeiro: Record, 2006.

[2] Traité Ribbentrop-Molotov, disponível em: http://www.letton.ch/lvribent.htm, também disponível em: http://www.geocities.com/iturks/html/ribbentrop_molotov_pact.html. Acesso em: 02/04/2007.

[3] CHURCHILL, S. Winston, Memórias da Segunda Guerra Mundial, Rio de Janeiro, 2ª ed. Editora Nova Fronteira, 1995. p. 530.

[i] Nikolai Ivanovich Bukharin, revolucionário bolchevique e mais tarde político soviético, formulou princípios econômicos para a União Soviética, como a Economia de Etapa de Transformação, em 1920. Foi caracterizado por seu gradualismo no planejamento da economia ao criticar o crescimento soviético acelerado na época.

[ii] Campos de concentração para trabalhos forçados de criminosos e opositores ao regime stalinista (é comparado aos campos de concentração nazistas).

[iii] Império africano que durou mais de seis séculos.

[iv] “Do Meuse ao Memel”, trecho do hino alemão Deutschland über Alles numa exaltação desses dois importantes rios da Europa.

[v] Talvez se Hitler dotasse de uma visão estratégica ampla ele teria reconhecido o suicídio que seria combater em solo russo, sob o horripilante inverno que derrotou Napoleão, bem como se inteiraria de que sua invasão atrairia a decisiva assistência dos ingleses.

[vi] Pois desgastar seus recursos aéreos com bombardeios em Londres pouco abalaram o poderio inglês perante as forças alemãs. A Inglaterra, sozinha na guerra, não detinha ainda o staff militar necessário para uma efetiva empreitada anfíbia (de desembarque de tropas) em terreno hostil, em algum lugar da França ocupada, por isso não seria razoável que antecipasse o Dia D.