segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Auguste Comte não tomava banho

Os vikings destruiam e pilhavam, Auguste Comte também.


Tendo uma conversa sociológica com Raymond Aron por meio de seu livro interpretativo sobre As Etapas do Pensamento Sociológico, repentinamente tive no lapso de um espasmo a embriaguez duma santa impaciência. Não pude hesitar-me a deixá-lo falando sozinho no momento em que sua exposição cativante me apresentava o pensamento do viking da sociologia. O referido era mesmo um devorador de criancinhas e espoliador de pequenas tribos; implacável na introdução de seu machado ceifador de duas faces. Seus objetivos eram destruir e pilhar sempre ansioso a espera de seu próximo botim atroz em Novogorod, Kiev ou como rei Canute em Essex ou para onde dessem as águas cristalinas do Oder, Neisse ou o Elba. E tão logo me peguei confuso diante tanta mutilação e por certo inconformado com Aron ao ter afirmado ser este bárbaro um “galo” francês. Mas insistia comigo mesmo convicto e incisivo de ter sido ele um escandinavo ou um juto da Dinamarca a velejar em seu trirreme nórdico, traçando do Báltico ao Mediterrâneo, o aviso além-mar do terror que aguardava o velho continente com a chegada das listras rubro brancas.

Foi então que, por um instante, passei a ver Aron começando a ser intransigente ou como se diz por ai, um chato. Contudo, logo recobrei a consciência modesta percebendo de pronto o equivoco de minha irritação. Ao remontar nossa conversa me lembrei de que a essência envolta em As Etapas do Pensamento Sociológico baseia-se num diagrama interpretativo da filosofia de pensadores acerca das sociedades ao longo de períodos que marcaram, no século XIX e início do XX, o desejo de refletir sobre a ação social dos homens.

Mesmo assim a ressaca daquela embriaguez não havia se dissipado e pasmado fechei a lavra, acabando por deixar Aron coçando sua careca. Assumo a envergadura quixotesca que deveria ter sido de pronto confinada ao arresto da auto crítica. Arco com a grosseria de não deixá-lo terminar, mas que me desculpe o autor da prazerosa “Paz e Guerra entre as Nações”. Não pude conter a veemência e a rispidez que, de fato, não compartilham de uma postura atribuída a quem é ou deseja ser um homem de ciência (pressuposto que ele mesmo recobra para si).

Embora esse decapitador incendiário não fosse um escandinavo do século VIII ou pelo menos um cavaleiro teutônico das planícies wagnerianas da Germânia, ainda persistiam os resíduos – que Vilfredo Pareto chamaria de sentimentos constantes impressos na natureza humana – de um destruidor bárbaro a bater os calcanhares ávido por demolição.

E de passagem discordo conjuntamente com Aron ter sido o demolidor de instituições o fundador da ciência sociológica apenas por ter ele forjado o termo. Passei a acreditar ser o “Espírito das Leis” a obra pioneira e Montesquieu o Sócrates da sociologia.

Contudo, perante toda aquela carnificina sociológica desprendida por apenas uma única cachola parida na França de Napoleão III, a fulminante ebulição mental a que me foi imposta não pôde ser evitada. Cesare Pavese em meu lugar teria se entupido de barbitúricos, mas eu o fiz com maracujina.

Sua mente cataclísmica concebia estorvos que guinavam para rumos que um raciocínio sadio não pode compreender e jamais o fará. Mas basicamente sua cúpula mental meditava uma premissa sob a qual estava a bússola de todo seu espírito atroz: a humanidade passa necessariamente por três etapas graduais, descobrindo gradativamente o mundo que a circunda, para finalmente chegar a seu calvário, mas abolindo obrigatoriamente todas as etapas anteriores, pois que não poderiam mais acompanhar a marcha progressiva de sua realização. Era o que ele compreendia sobre a lei dos três estados, teológico, metafísico e positivo, baseada numa relação dialética entre a “estática” da natureza humana e a “dinâmica” da marcha para o progresso, que permitiria os homens descobrirem as leis positivas num lento processo até alcançarem a verdade plena. O que fosse anterior ao alcance desta verdade tinha de ser queimado.

Calvário é a expressão ideal para ilustrar a construção intelectual deste homem, pois assim como representa a bíblia tem-se a impressão de que esta alma solitária estivesse sozinha imponente no pico de uma montanha de caveiras, ao atingir o clímax de sua carnificina sociológica: por que o estado positivo teria de incendiar as etapas dos pensamentos anteriores? Ele desfere de pronto sua lâmina com algoz: porque o positivismo seria a última e definitiva instância universal do pensamento humano e a crista que faria a História encerrar seu testemunho. Não haveria mais guerras nem periferias, pois a humanidade estaria marchando para sua plenitude e tudo seria providenciado pelo bárbaro sentado no topo de sua montanha de ossos.

Tudo o que estivesse anterior à etapa do positivismo ou que levasse a ele não passariam de fenômenos obsoletos prestes a caírem diante daquilo que acreditava ser a única religião a ser pregada e cultuada em seu tempo: a ciência moderna. Ora, se o pensamento positivo, exato e lógico era a luminária da razão e a ponte que conduziria a humanidade para seu êxtase existencial, então a utilidade de tudo o que estivesse presente nos outros dois estados teria que ser condenado ao enforcamento, pois não poderiam mais explicar ou nortear os homens para a luz do conhecimento. A própria política, no tocante à organização do Estado seja sob uma república ou monarquia, não seria mais do que uma velha maneira de organizar uma sociedade que deveria se resumir a uma expressão simples, curta e grossa: a força. Só a força poderia disciplinar os homens para a sua marcha ao positivismo (isso explica seus modos e porque o Leviatã de Hobbes era seu livro de cabeceira).

Dá-se a entender que ele era um reformulador de seu tempo, queria transformar as instituições da sociedade européia a partir de uma mudança no estado de consciência dos homens em função do estado de razão que pairava na Europa do século XIX: um continente que radiava sabedoria seja por descobertas científicas ou pelo laissez-faire do capitalismo em consolidação. Queria um consenso social único e baseado na razão, para ele positiva. Pensava poder sintetizar as sociedades e a História para oferecer uma verdade única, absoluta, imutável e perpétua para toda a humanidade. Queria destroçar tudo o que fosse anterior ao centro da sua cabeça. E foi assim que no topo de sua montanha se tornou o viking da sociologia. E assim fundou a “sociocracia” absolutista.

Palmas para este degolador implacável. Dos assaltos promovidos pela “sociocracia” absolutista agiam em conjunto Marx, Saint-Simon, Fourier, Condorcet (seu predecessor) com sua “matemática social” (!) e, já basta por aqui, Émile Durkheim (seu sucessor). Todos totalitários ou mutiladores na dita sociologia.

Nem mesmo na mitologia nórdica os escandinavos de Midgard ou seus deuses em Asgard, Thor, Loki, Odin ou Freyja, teriam sido tão atroadores contra os trolls (forças do caos) de Utgard, no conto do fantástico poema Trymskveda.

Bem, remontando o mosaico social imperado no velho continente conhecido por Idade Média, fora o esteio episcopal rigoroso no seio da ordem clerical cristã da Europa, os meios e os modos de vida sobrepostos aos estertores do feudalismo medieval não pairavam apenas em torno de um espectro decadente e mórbido, estendido aos vários estratos sociais impostos à estagnada relação servil de suserania e vassalagem. Era, em geral, a degeneração em vida.

Apesar de Aron e uma vasta bibliografia ter me convencido de que o “criador” da sociologia fosse de fato natural da França, recém revolucionada, o referido parecia ter tido uma psique mistificada em torno da literária caricatura de Harald, cabelo belo – o rei que unificou o reino da Noruega por volta de 872 d.C. – e ao mesmo tempo um navegador aventureiro velejando em um drakkar (barco a vela) pronto para saquear, aterrorizar e pilhar toda a Europa ou onde desembarcasse.

Estando eu certo ou errado quanto à higiene particular na vida medieval, há de se ter a impressão e desconfiar de que Auguste Comte não tomava banho.

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